top of page

Saúde mental na estratégia de ATER da Cooptrasc

Foto do escritor: coomunica30
coomunica30
29 de set.
5 min de leitura

Além do acesso às políticas públicas, comunidade e família ampliam a rede de cuidado



A depressão cresce no mundo à medida que se deterioram as relações sociais, aumentam as desigualdades e o isolamento e diminuem a qualidade de vida e o bem-estar. No campo, o sofrimento psíquico se relaciona ainda a fatores como a violência, a exposição a agrotóxicos, as jornadas exaustivas de trabalho, o isolamento e a dificuldade de acesso às políticas públicas de saúde.


Dados da OPAS (Organização Pan-Americana de Saúde) estimam que cerca de 300 milhões de pessoas são afetadas pela depressão no mundo, e esta é a segunda maior causa de morte entre jovens de 15 a 29 anos. Especialistas da Faculdade de Medicina do Ceará, entretanto, acreditam que estes dados podem estar subestimados, já que muita gente sofre da doença sem saber. É o que mostra um estudo que cruzou dados de saúde mental e comorbidades na população rural do município de Pelotas, no Rio Grande do Sul. Mais de um terço dos doentes crônicos relataram sofrer também com algum transtorno depressivo, levando pesquisadores a crer que, mesmo com o diagnóstico, muitas pessoas podem não estar recebendo o tratamento adequado.


Os desafios da saúde mental


São muitos desafios relacionados à saúde mental no Brasil, e este não é um problema fácil de resolver em um país tão grande e diverso como o nosso. Principalmente porque os índices relacionados à saúde mental são ainda incipientes. As duas Pesquisas Nacionais de Saúde (PNS), realizadas pelo Ministério da Saúde em parceria com o IBGE, em 2013 e 2019, trazem dados importantes, como a prevalência de mulheres entre os grupos mais diagnosticados pela doença, mas não tratam especificamente do problema. Sabemos, no entanto, que o acesso às políticas públicas de saúde mental no meio rural é mais restrito: 13,4% das pessoas diagnosticadas com depressão estão em tratamento psicoterápico no campo, enquanto no meio urbano esse número é de 19,6%.


A mesma pesquisa concluiu ainda que a população rural tem significativamente mais percepção da piora da qualidade de vida global do que aquelas que vivem na cidade. Entre os fatores que corroboram com essa percepção estão justamente a distância dos equipamentos públicos de assistência social, a violência no campo, a ansiedade climática, o estigma social e a constante violação de direitos, além de jornadas exaustivas de trabalho e exposição a agrotóxicos.


Queixas como essas fazem parte do dia a dia da engenheira agrônoma Maria Gabriela Kirsch, que atua como técnica do Programa ATER Bem Viver nos assentamentos da Reforma Agrária em Rio Negrinho. Ela conta que as reclamações partem principalmente dos produtores de fumo, que desenvolvem patologias por conta da própria toxicidade da planta (doença da folha verde), do uso de agrotóxicos e das longas jornadas e exaustivas de trabalho durante a colheita. Junto à assistente social da Cooptrasc, Nelícima Novello, elas construíram uma cartilha informativa, facilitando o acesso às redes de saúde mental do município e, mais importante, abrindo um espaço de escuta e apoio àqueles que sofrem.


Cuidado em rede


Paula Sassaki, da rede de Saúde Mental do MST, explica que o adoecimento e o cuidado são processos multidimensionais e, por isso, devem ser compreendidos em rede. Inserir a família e a comunidade no processo de cuidado pode ser mais efetivo do que a ajuda especializada.


“Este corpo social que o movimento tem, em torno de suas pautas e ideologias, tem um papel mais importante na maneira como lidamos com o luto, por exemplo, do que os próprios profissionais podem ter e isso vira estratégia de cuidado”

Modelos científicos como a Pirâmide de Intervenção em Saúde Mental e Apoio Psicossocial (SMAPS), desenvolvida pelo IASC (Comitê Permanente Interagências da ONU) em 2007 para orientar ações em emergências humanitárias, desastres e crises, respaldam essa ideia. Na base da figura, a parte majoritária da pirâmide tem serviços informais como a principal forma de intervenção e apoio psicossocial. Em primeiro lugar, estão os serviços de necessidade pessoal e segurança e, logo acima, a comunidade e a família. O apoio dirigido e o atendimento especializado aparecem em menor grau, no topo da pirâmide, o que corrobora com os dados da PNS, que indica que apenas 4% dos entrevistados relataram ter sido diagnosticados com outros transtornos mentais, como esquizofrenia, transtorno bipolar, psicose ou TOC (Transtorno Obsessivo-Compulsivo).




Este ano, o governo federal vem realizando, desde março, a primeira Pesquisa Nacional em Saúde Mental. No início deste mês, eram 197 municípios de 26 estados visitados. O estudo inédito tem o objetivo de mapear a saúde mental no país, identificando a prevalência dos transtornos e seus fatores de risco, os determinantes sociais, custos e impactos na qualidade de vida, para orientar mais políticas públicas na área.


Enquanto isso, o coletivo do MST se apoia na estratégia de saúde da família do SUS e na própria organicidade do movimento para promover a saúde mental nos assentamentos. “Esses recursos que nós temos, de ver nossos símbolos e valores representados em uma mística, por exemplo, ajudam a construir um projeto de saúde, onde a resiliência é construída coletivamente”, explica Paula.


Uma assistência técnica que também cuida


Vivemos um momento histórico desafiador, de instabilidade geopolítica, ataques aos direitos dos trabalhadores e da natureza, com um super El Niño à espreita, ameaçando não apenas a produção, mas a própria vida das pessoas no campo. É nesse contexto que a Cooptrasc aposta em uma assistência técnica humanizada, que entende a transição agroecológica não apenas como a substituição de um modelo produtivo por outro, mas como um caminho para o bem viver no campo. Isso significa promover mais qualidade de vida, valorizar os saberes e práticas tradicionais dos territórios e estimular formas coletivas de cuidado, como mutirões, trocas de sementes e espaços de convivência. A cartilha construída em Rio Negrinho é uma dessas ferramentas, mas o cuidado acontece também na presença cotidiana dos técnicos e técnicas, preparados para escutar, orientar e ser uma referência de apoio para as famílias.


A experiência da Rede de Saúde Mental do MST, criada em 2020, durante a pandemia, para acolher principalmente mulheres em situação de violência doméstica, também mostra a importância de construir redes de cuidado antes e durante os períodos de crise. O coletivo ampliou sua atuação e hoje atende assentados e assentadas da reforma agrária, principalmente de forma online, no estado de São Paulo. São iniciativas que evidenciam a importância de políticas públicas e estruturas sociais capazes de alcançar a base da pirâmide do cuidado — a família, a comunidade e as redes de apoio — especialmente em momentos de crise, quando o isolamento e a insegurança podem aprofundar o sofrimento.


Nem sempre o sofrimento psíquico aparece como aquilo que costumamos chamar de depressão. Transtornos mentais comuns podem se manifestar por meio de tristeza persistente, ansiedade, irritabilidade, falta de energia, alterações no sono e no apetite, dificuldade de concentração ou perda de interesse pelas atividades cotidianas. Reconhecer esses sinais e falar sobre eles também é uma forma de cuidado. Pedir ajuda é importante e pode ser o primeiro passo para não enfrentar o sofrimento sozinho. A cartilha elaborada pela Cooptrasc orienta sobre os caminhos para buscar atendimento, como o CVV (188), as Unidades Básicas de Saúde, os CAPS e os CRAS.



OBS: A cartilha informa que 36 em cada 100 agricultores sofrem de depressão, segundo a Great People Mental Health. O dado refere-se ao recorte do agronegócio e não representa uma estimativa geral da prevalência de depressão entre agricultores brasileiros.




 
 
 

Comentários


Siga-nos nas Redes Sociais

  • Instagram
  • Facebook

© 2023 por Renova Consultoria. Orgulhosamente criado com Wix.com

bottom of page